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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Bosch e Bruegel


Há uns 9 meses, li o livro A Peste de Albert Camus. É uma obra fantástica, na qual Camus, mais uma vez, mostrou sua genialidade. No entanto, a capa me chamou mais atenção, o que não deixa de ser curioso, visto que capas de livros nunca prenderam minha atenção. Mas a deste me intrigou, e só descansei quando descobri que a ilustração é a obra do pintor flamengo Hieronymus Bosch (1450-1516). Desde então, ele se tornou um dos meus pintores preferidos.
O pintor Hieronymus Bosch, sob a influência de uma formação religiosa fortíssima e talvez do clima sombrio dos Países Baixos, tem dado forma a passagens bíblicas que tratam do apocalipse. Bosch pinta grandes painéis nos quais mistura diferentes situações bíblicas, em efeitos desconcertantes. Sua mais surpreendente obra, A Tentação de Santo Antônio, finalizada no ano passado, retrata um mundo corrupto, grotesco e putrefatato. (Veja)
(Painel central de A Tentação e Santo Antonio,Bosch)Em minhas leituras sobre Bosch, descobri que ele influenciou o meu pintor favorito, o Pieter Bruegel (1525/1530-1569). Bruegel (Brueghel até 1559) é considerado o primeiro maneirista dos Países Baixos dono de um estilo que o diferencia de seus contemporâneos Tintoretto e El Greco (outro artista que me encanta). O cotidiano medieval, atividades humanas, vida campestre são temas constantes nas telas de Bruegel. Oscila entre o gótico medieval e a pintura flamenga renascentista, e tal como Bosch, seu antecessor, aproveita cada espaço da tela, por conseguinte, a riqueza de detalhes é impressionante. As obras de Bruegel retratam humanos, monstros, animais e figuras híbridas. É Realista nos detalhe, não distorce as figuras como El Greco o faz, porém, no conjunto da obra há um surrealismo que se perdura na pintura surrelista moderna.
Suas principais obras são: O Triunfo da Morte, A Torre de Babel, Terra de Cocaigne, A Batalha entre Carnival e Lent, etc. As minhas preferidas são: Jogo de Crianças, A Parábola dos cegos e A Batalha entre Carnival e Lent.
Suas principais obras são: O Triunfo da Morte, A Torre de Babel, Terra de Cocaigne, A Batalha entre Carnival e Lent, etc. As minhas preferidas são: Jogo de Crianças, A Parábola dos cegos e A Batalha entre Carnival e Lent.
Flor do Deserto
Seu nome é Waris Dirie, a Flor do deserto. Nome mais que adequado para essa personalidade linda e delicada como uma flor, porém tenaz o suficiente para sobreviver às adversidades. Ex-modelo internacional e atualmente embaixadora da ONU, é um dos maiores exemplos de persistência, determinação e coragem que já vi.
Saiu de uma tribo no deserto da Somália para as capas das mais renomadas revistas de moda, como a Vogue. Essa trajetória, porém, não foi fácil. O relato pode levar a pessoa mais insensível às lágrimas. Waris nasceu num lugar onde as mulheres não têm voz, e onde ainda é mantida uma prática vil e arcaica: a mutilação genital feminina. A justificativa para tal ato (nada justifica ) é que as partes íntimas das mulheres são sujas e lascívas, portanto deve-se retirar o clitóris, feito isso a mulher estará limpa e digna para um casamento. pode levar à morte, visto que é feito em condições primitivas, sem anestésico, com facas ou pedras.
Aos cinco 5 anos de idade, Waris foi mutilada. Isso deixou marcas profundas nela. Diz que a dor é ... não tem palavras. É para poupar outras meninas do mesmo sofrimento, que batalha contra essa prática. Esse não foi seu único sofrimento. Foi obrigada, aos 13 anos, a se casar com com homem de 60 anos. Se rebelou, fugiu. Foi sua atitude tão destemida que fez com que sua história fosse diferente da das suas conterrâneas.
A trajetória até a fama foi cheia de altos e baixos. Há detalhes que perderiam a essência se narrados por mim, ninguém melhor que Waris Dirie para nos levar à emoção e compartilhar com ela momentos de dor, surpresa, felicidade...
Contos de fadas e contos maravilhosos
Fadas, bruxas, príncipes, reis, rainhas, duendes e criaturas falantes fazem parte do universo mágico que compõe as narrativas maravilhosas. Estas narrativas são oriundas da imaginação coletiva e foram transmitidas através da tradição oral e ainda se perduram lançando seus encantos não só ao público infantil, tido como público alvo, mas também aos leitores adultos, como assinala Coelho (1987):
A visão mágica do mundo deixou de ser privativa das crianças, para ser assumida pelos adultos. A bela Adormecida, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho e mil e outras narrativas maravilhosas ainda terão algo a nos dizer? Sem dúvida que sim. O que nelas aparece apenas “infantil”, divertido ou absurdo, na verdade carrega uma significativa herança de sentidos ocultos e essenciais para a nossa vida. ( COELHO, 1987:9)
E qual é o segredo da perenidade das narrativas maravilhosas? Mais do que simples estórias de encantamento, essas narrativas representam, simbolicamente, temas profundos, questões existencialistas e as mesmas inquietações e desejos do homem atual, transcendendo, portanto, épocas e culturas diferentes. Das formas de narrar, o Conto de fadas e o Conto maravilhoso são as mais salientes e possuem semelhanças tão grandes entre si que costumam ser confundidas. Há, porém, diferenças significativas entre ambos.
A partir da origem notam-se as diferenças; enquanto o Conto de fadas tem origem celta, o Conto maravilhoso tem origem oriental. O primeiro pode ter ou não a presença de fadas, mas obrigatoriamente deve ter elementos feéricos. Outra distinção muito significativa, segundo COELHO (1987), é o núcleo problemático, que no Conto de fadas caracteriza-se pela busca do herói pela realização pessoal marcada pelo teor existencialista. Nessa busca, o herói enfrenta adversidades e contratempos, e recebe, na maioria das vezes, o auxílio de uma fada para alcançar seu ideal, o amor. O termo fada vem do latim fatum que significa destino, fado. Sendo assim, atuam como mediadoras intervindo no destino do herói ou da heroína. Há fadas que podem dificultar a trajetória do herói são comumente conhecidas como bruxas. A dualidade entre o bem e o mal é outro aspecto importante do Conto de fadas. Nessa batalha, o bem sempre vence o mal, o que indica o conteúdo moralizante dos contos.
Por sua vez, os Contos maravilhosos apresentam a problemática da tentativa de ascensão social, realização exterior, segundo COELHO (1987). Nesses contos, o protagonista ou o antagonista partindo da pobreza tenta ascender socialmente e na busca por riquezas acontecem as venturas e desventuras. É importante salientar que as fadas não integram o universo maravilhoso desses contos, outros elementos mágicos estão presentes (duendes, animais e objetos falantes, entre outros).
PERRAULT E OS IRMÃOS GRIMM
Nascidas da tradição oral, as narrativas maravilhosas foram coletadas, transcritas e adaptadas. Charles Perrault foi o responsável por adaptar para o público infantil as histórias que antes eram direcionadas para os adultos. Para COELHO (1987), a intenção de Perrault não era apenas recriar estórias para as crianças:
A partir daí Perrault volta-se inteiramente para essa redescoberta da narrativa popular maravilhosa , com um duplo intuito; provar a equivalência de valores ou de “sabedoria” entre os Antigos greco-latinos e os Antigos nacionais, e , com esse material redescoberto, divertir as crianças, principalmente as meninas, orientando sua formação moral. (COELHO, 1987: 68)
Em 1697, Perrault publicou a obra que é considerada o marco do nascimento da literatura infantil, Contos da Mãe Gansa. É composta por oito contos A Bela Adormecida no bosque, Chapeuzinho vermelho, O Barba azul, O Gato de botas, As fadas, A Gata Borralheira, Henrique do Topete e O Pequeno Polegar, sendo seis contos de fadas e dois contos maravilhosos, todavia, sem essa distinção “Mas naquele momento, não havia distinção de espécie entre eles. Eram todos igualados como histórias e contos do passado , que ficaram famosos como Contos da Mãe Gansa.” (COELHO, 1987: 69)
O trabalho dos Grimm é o enfoque da presente pesquisa. Folcloristas, filólogos e estudiosos da língua e mitologia germânica, Jacob e Wihlem Grimm foram alemães que se preocuparam em estudar a língua e o folclore alemão. Para embasar seus estudos lingüísticos, os Grimm coletaram narrativas maravilhosas, lendas, fábulas diretamente da tradição oral
Duas mulheres teriam sido as principais testemunhas de que se valeram os Irmãos Grimm para essa homérica recolha de textos: a velha camponesa Katherina Wieekmann, de prodigiosa memória, e Jeannette Hassenpflug, descendente de franceses e amiga íntima da família Grimm.” (COELHO, 1987: 73)
Depois de transcrito e adaptado, esse material resultou na obra intitulada Contos de fadas para crianças e adultos (Kinder und Hausmaerchen).
Os irmãos Grimm deram uma nova roupagem às narrativas maravilhosas, uma roupagem desprovida da violência que havia nos contos de Perrault. Como bem assinala COELHO (1987), a violência presente nas estórias de Perrault deu lugar a um humanismo resultante do Romantismo em voga na época. Apesar dessa patente distinção entre os contos de Perrault e dos Grimm, possuem algumas semelhanças , principalmente fundo comum das fontes orientais, célticas e européias, de onde surgiram (COELHO, 1987: 75). Da ampla coletânea de contos e fábulas dos irmãos Grimm , muitos contos se destacam como Os sete Anões e a Branca de Neve, A Bela Adormecida, O Chapeuzinho Vermelho, A Gata Borralheira, Os músicos de Bremen, entre outros.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Análise estrutural do conto machadiano Missa do Galo
É narrado pelo personagem protagonista Nogueira,
que numa retrospectiva insegura, relembra o passado. Volta aos 17 anos, quando
esteve hospedado na casa do escrivão Meneses, que fora casado com uma de suas
primas, e agora com a boa e santa Conceição. Recorda-se da noite de Natal,
quando esperava a meia-noite para acordar o vizinho que iria acompanhá-lo.
Enquanto lia Os três mosqueteiros, D.
Conceição entra na sala e iniciam um diálogo insinuante, misterioso e aparentemente
banal, deixa-o confuso, como bem expressa ao iniciar a narrativa “Nunca pude entender a conversação que tive
com uma senhora [...]”, diálogo que
só finda devido à missa que ele deveria ir. No dia seguinte, Conceição age como
se nada houvesse acontecido. Nogueira retorna à Mangaratiba e mais tarde toma
conhecimento da morte de Meneses e do casamento da boa Conceição com o
escrevente juramentado do marido.
Analisando
a estrutura narrativa do conto, a
começar pelo enredo – conjunto de fatos que constituem a ação - percebe-se que não há ocorrência sucessiva,
portanto não-linear. Através de uma retrospectiva o narrador-personagem
constrói a narrativa. Primeiramente há a
exposição dos personagens:
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora
casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas A segunda mulher,
Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio
de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa
assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns
passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas.
O estabelecimento do conflito
acontece quando Conceição entra na sala interrompendo a leitura do jovem.
Inicia-se
uma longa conversa, um jogo de sedução subjetivo, uma aproximação, uma troca de olhares, esses
fatos correspondem ao desenvolvimento
do conto.
O clímax se
dá no momento que Conceição anda inquieta, senta-se sensualmente, seduz o jovem
inexperiente:
E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as
nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido:
cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes,
ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou,
trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no
canapé. Voltei-me e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo
que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me
que eram pretas. (1983, 83)
Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via
dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem
fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio
que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não
sei se apressada ou vagarosamente. (1983, 84)
O
‘elemento’ braço aparece em várias obras de Machado Quincas Borba, Dom Casmurro, no conto Uns braços, inclusive no conto em questão;
Pouco a pouco, tinha-se reclinado; fincara
os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não
estando abotoadas as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos
braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor.
A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia, contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. (1983, p.83)
A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia, contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. (1983, p.83)
O desenlace ocorre
no momento em que o vizinho bate na janela chamando-o para a Missa. Há uma
quebra daquela atmosfera de intimidade e sedução, das quais, aparentemente, não
restam vestígios no dia seguinte, pelo menos para Conceição, que demonstra a
bondade que lhe é característica.
A
presença do quadro de “Cleópatra”, pode ser interpretado como um motivo
narrativo associado- importante para a
coerência actancial interna. Ao dizer que os quadros estavam velhos e que
preferia imagens de santas, Conceição parece querer chamar a atenção de
Nogueira para o quadro de Cleópatra, rainha famosa bela beleza e seus romances
com Marco Antônio e Júlio César.
O espaço inicial
e final da narrativa é o mesmo, trata-se do espaço exterior - dehors sartreano. Passa-se no Rio de
Janeiro, na Rua do Senado, num casa mal assombrada. A ação acontece na sala.
Quanto
à representação temporal, trata-se
do sistema horológico, objetivo e marcado de forma precisa:
“Os minutos voavam, ao contrário do que
costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar
por elas, um acaso”. (1983,p.82),
“Às dez
horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia”. (1983,
p.81)
“Naquela
noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862” (1983,
p.81)
“combinei que eu iria acordá-lo à
meia-noite.” (1983,p.81)
A técnica do Flashback é
perceptível no conto, a volta ao tempo para recordar algo relevante do passado:
“Nunca pude entender a conversação que
tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta” (1983,p.
81).
“Há impressões dessa noite, que me
aparecem truncadas ou confusas” (1983,p.85)
Nogueira
reflete sobre aquela noite de Natal dezessete anos atrás, para tentar entender
aquela conversa com Dona Conceição, conversa que o deixou intrigado e confuso
ao longo dos anos.
Quanto
à natureza, os personagens pertencem à categoria de seres humanos. São eles:
Nogueira, rapaz ingênuo, 17 anos, estudante de Mangaratiba que vai ao Rio de
Janeiro estudar preparatórios. Conceição, 30 anos, considerada boa e santa pelo
narrador, temperamento moderado, tolerava as traições do marido. Chiquinho
Meneses é escrivão, casado com Conceição, antes com a prima de Nogueira,
adúltero, morreu de apoplexia. Meneses, sua sogra e as duas escravas são apenas citados na narrativa.
Os
personagens principais são Conceição e Nogueira, sendo este o protagonista,
pertencente ao primeiro plano. Conceição é uma personagem esférica, a princípio
era natural, previsível, benigna, mas naquela noite de Natal, surpreende o
narrador-personagem e o próprio leitor, revela-se uma mulher sedutora,
insinuante, madura.
O
vizinho, inconscientemente, é o antagonista, pois atrapalha um momento de
enlevo do protagonista.
O
nome dos personagens, às vezes, é um pretexto motivacional, pode ser um dos
motivos associado à ação. Como ocorre com Conceição:
“O nome da personagem alude à Imaculada Conceição, mas vem de concipio, composto de cum (com, junto a) e capio (tomar, agarrar, aferrar). Se o erotismo e a capacidade de sedução de Conceição são reprimidos, inconsistentes, quase (in)existentes, no momento da representação o seu olhar perturbador persegue Nogueira.” (1996)
Em Missa do Galo há apenas a visão do narrador-personagem, por
conseguinte, ele mais conta (‘telling’) do que mostra (‘showing’). Segundo a
proposta de Komroff, trata-se de um narrador interno – primeira pessoa,
protagonista. Na topologia de Norman Friedman: “eu” protagonista ou
narrador-protagonista, aquele que é limitado, não onisciente. Como a narrativa
é retrospectiva, memorialista, está sujeita a falhas, incertezas:
Há impressões dessa noite, que me
aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me.(1983, p.84)
De
acordo com a teoria das visões na narrativa de Jean Pouillon, a relação
narrador-personagem neste conto
machadiano, é a visão com, na qual o
narrador é limitado, expõe o seu ponto
de vista sobre os outros personagens,
acontecimentos e sobre si mesmo. Analisa as reações alheias, mas não tem
certeza delas, não é onisciente. “ Talvez
esteja aborrecida” pensei eu (1983. p82) (grifo meu)
Após
a análise, algumas indagações foram sancionadas, outras surgiram, muitas
interpretações são possíveis, como bem diz Gotlib:
Na verdade, nem ele, nem nós conseguimos ir
até o final das conjeturas, para chegarmos a uma conclusão sobre o que
realmente aconteceu naquela noite, entre Sr. Nogueira e d. Conceição [...]
Por
conseguinte, esse conto, assim como outras obras de Machado, representa um
desafio, um enigma para o leitor, além de proporcionar um leque de
interpretações das mais variadas dependendo da visão de cada pessoa.
REFERÊNCIAS
- GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. 4. ed. São Paulo: Ática, 1997.
- LEITE, Lígia Chiapini Moraes. O foco narrativo. São Paulo: Ática, 1985.
- __ “Missa do Galo”: ironia romântica amor e leveza. In_____caderno Cepusc de Pesquisa. Série ensaios. n2. Belo Horizonte: PUC Minas, p. 34 – 42 (Site: www.ich.pucminas.br/.../Missa%20do%20galo%20revisado.pdf / em 25 de Novembro)
- ASSIS, Machado de. Missa do Galo. In____Machado de Assis Contos. 10 ed. São Paulo: Ática, 1983, p.81-85
- · GOTLIB, Nádia Batella. Teoria do Conto. Série Princípios Editora Ática; Rio de Janeiro, 2006 (versão em PDF)
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
O Grande Mentecapto - Fernando Sabino
“ Esta é uma obra de imaginação profundamente séria, e mesmo pungente, a despeito do autor, que a quis fazer burlesca e burlona, porém não resistiu à pressão interna dos personagens e das situações por eles vividas.” (Carlos Drummond de Andrade)
O jornalista e escritor Fernando Tavares Sabino nasceu em Belo Horizonte em 12 de Outubro de 1923. Na adolescência foi locutor de rádio e desde então já mostrava seu talento como escritor, escrevia artigos, contos e crônicas em revistas da cidade. Na década de 1940, ingressou na Faculdade de Direito e no ramo jornalístico, tornando-se redator da Folha de Minas. Em 1941, publicou seu primeiro livro de contos, Os grilos não cantam mais. O Encontro Marcado (1956), uma das suas obras mais conhecida e prestigiada, foi editada no exterior e adaptada para o teatro. Publicou outras obras como: O homem nu, O menino no espelho, Amor de Capitu, O pintor que pintou o sete, publicou suas correspondências com Clarice Lispector, Paulo Mendes, entre outros. Em Julho de 1999, recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras. Faleceu na véspera do seu aniversário de 81 anos, devido a um câncer no fígado, em sua casa no Rio de Janeiro. A seu pedido, está gravada em sua lápide: “Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino.”.A obra trabalhada nessa resenha foi iniciada em 1946, quando o autor tinha 23 anos. Porém, deixou-a inacabada, dedicando-se a outros livros como O Encontro Marcado. Anos depois, encontrou a história entre papéis velhos e mostrou a sua mulher, que o incentivou a concluí-la. Em 1979, 33 anos depois, foi publicada, garantiu-lhe o Prêmio Jabuti e foi adaptada para o teatro e cinema. Trata-se de um romance com características da novela picaresca, onde Sabino exalta as pessoas simples, ingênuas e puras, isso está claro na epígrafe: “Todo aquele, pois que não se fizer pequeno como este menino, este será maior no reino dos céus”.
A história se passa em Minas Gerais, tem como personagem principal Geraldo Boaventura, nome de batismo, logo é nomeado Geraldo Viramundo, por causa das suas aventuras e desventuras. É um personagem picaresco, um Dom Quixote mineiro. E assim como na obra de Dom Quixote, em cada capítulo tem um pequeno resumo dos fatos principais. No primeiro capítulo é narrada a sua infância vivida numa cidadezinha chamada Rio Acima. Era o caçula de treze irmãos, era como os outros meninos, brincava, corria, nadava, perturbava e cedo virou homem. A parte mais marcante desse capítulo é quando Viramundo faz uma aposta com seus amigos, de que pararia o trem que passava pela cidade e pelo qual os meninos tinham fascínio. Posicionou-se em cima da linha e o trem teve que parar. Tal fato foi comentado durante semanas na cidade, ele ficou conhecido como o menino que parava até trem. Pingolinha, um amigo seu de 6 anos, quis repetir a façanha e terminou tendo um final trágico. Viramundo levou a culpa, foi julgado por toda cidade. Esse acontecimento o marcou e nunca mais foi o mesmo, ditanciou-se dos amigos, passou a viver isolado e pensativo. O aparecimento do padre Limeira na cidade, o faz desejar seguir a vida religiosa, contente, o padre o leva para o Seminário.
No segundo capítulo, o narrador deixa claro que nada sabe sobre sua vida no seminário. Este é um recurso muito interessante usado por Sabino. Finge que é um pesquisador sobre a vida de Viramundo e que este realmente existiu. Sabe apenas que Viramundo tornou-se uma pessoa culta, aprendeu francês, mas um grande vazio e desespero tomaram conta dele, pois percebeu que estava no lugar errado. O que motivou sua saída do seminário, foi ter, acidentalmente, escutado a confissão de uma viúva nada moral e logo em seguida ter espalhado as aventuras dela. As pessoas revoltadas com a promiscuidade da viúva, Pietrolina ou Peidolina (como alguns maldosos a chamavam), resolveram bater nela. linchá-la, ao intervir, Viramundo é espancado e expulso da cidade.
Sua vida é percorrer Minas Gerais, sem assumir compromissos e relacionamentos, é amado por uns, odiado e desprezado por outros. Por onde passa apronta alguma, mas nunca é intencional, é um homem com mentalidade de um menino, que quer mudar o mundo sem fazer mal a ninguém, se apronta é por conseqüência das atitudes dos outros. Recebeu 53 apelidos, cada um de acordo com um feito seu, como Vira-Lata, Pé na cova, Sacristia, Boi, Sem eira nem Beira etc. Quando chega em Ouro Preto, faz amizade com uns estudantes da república, é nesse período que se apaixona perdidamente por ninguém menos que a filha do governador Clarimundo Ladisbão, Marília. Isso remete a Dom Quixote, que se apaixonou do mesmo modo por Dulcinéia. Passa a lhe escrever cartas, Dionísio, um dos estudantes, compadecido, responde as cartas se passando por Marília. Isso deixa Viramundo eufórico e cheio de esperanças. Com remorso, os estudantes contaram-lhe a verdade, mas ele não acreditou. Um acontecimento fantástico e impressionante aconteceu com Viramundo num baile, tão fantástico, que ele acabou saindo da cidade.O próprio narrador diz que se o leitor escolher não acreditar, tem esse direito. É curiosa a posição do autor-narrador na história, não é personagem, mas interfere constantemente, e cita várias personalidades como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Freud, Umberto Eco etc.
Continua suas peregrinações, se candidata a prefeito, é preso, é internado num hospício, entra no Esquadrão da cavalaria, enfrenta um touro e uma assombração, é espancado injustamente por causa de uma mulher. Convive com meretrizes por não ter abrigo, vai morar na ruas, é levado para uma cidade projetada para abrigar só mendigos, é levado novamente para o hospício, comanda a revolução dos mendigos, loucos, meretrizes e simpatizantes. O narrador chega comparar essa revolução com a Revolta de Canudos.
Alguns acontecimentos mudaram completamente a vida de Viramundo. Um deles, foi finalmente ter acreditado que eram os estudantes que escreviam as cartas, daí constatou a efemeridade da vida. O outro foi a morte de uma idoso cego, amigo seu..Morto injustamente por policiais, percebe-se a forte crítica à corrupção e injustiças. Após a morte do amigo, Viramundo entra num conflito existencialista. Voltando à Revolução promovida por ele, o governador prometera melhorar a situação, mas não cumprira. Em resposta, Viramundo e dois fiéis amigos, Capitão Batatinhas e Barbareca, seguem ao Rio de Janeiro para recorrer ao presidente. Param no caminho para descançar, Viramundo reconhece Rio Acima, mas fica indiferente. Pressentia que sua hora havia chegado. Barbareca surge com um saco de comida, após saciados seus companheiros saem m busca de água,deixando Viramundo só. De súbito é rodeado por homens que o acusam de roubar as mercadorias do armazém e apontam o saco como prova do crime. Espancam e Viramundo faz um enorme esforço para não emitir som, para que seus amigos não apareçam naquela hora e apanhem também. É amarrado numa árvore e espancado sem dó, antes de irem embora, um dos homens pega uma vara e atinge no tórax do infeliz . Se não estivesse tão anestesiado pela dor, Viramundo teria reconhecido a voz do seu irmão Breno, o que provocou tudo. Seus amigos ao retornar, ficam chocados com a cena e choram desesperadamente, nada mais se podia fazer, se não fosse a vara lançada poderia ter sobrevivido. Deu um meio sorriso ao ver que seus amigos estavam salvos. Morreu aos 33 anos.Causa mortis: ignorada.Foi enterrado numa cova rasa como indigente.
Há um dialogismo muito forte com a bíblia; assim como Jesus, morreu aos 33 anos; em toda sua vida procurou fazer o bem e no final acabou morrendo injustamente. Há também, uma crítica à sociedade, os personagens são caricaturas para representarem os tipos das sociedade, há um choque entre a pureza e ingenuidade de Viramundo com a hipocrisia e maldade das outras pessoas. Essa ingenuidade do herói é quebrada quando percebe que tudo ao seu redor são calúnias, desonestidades.
É um livro espetacular, que aborda temas clássicos e profundos à maneira brasileira. Prende o leitor do início ao fim, e faz esse se envolver e simpatizar-se com Viramundo. Talvez Fernando Sabino nem imaginou que uma obra, a qual não deu tanta importância, faria tanto sucesso e fosse lida avidamente e aprovada com louvor. É um livro para se carregar por toda a vida.
quinta-feira, 3 de março de 2011
Marco Lucchesi é o novo membro da Academia Brasileira de Letras
Com 47 anos, o poeta e ensaísta é o membro mais jovem da instituição. Ele substitui o Padre Fernando Bastos Ávila, morto em novembro de 2010.
A Academia Brasileira de Letras (ABL) elegeu, nesta quinta-feira (3), o professor, ensaísta e poeta carioca Marco Lucchesi para a Cadeira Número 15 da instituição. Com 47 anos, Lucchesi, que passou a ser o integrante mais jovem da ABL, substitui o Padre Fernando Bastos de Ávila, falecido em 6 de novembro do ano passado. O poeta recebeu 34 dos 38 votos possíveis (tendo sido três abstenções e um voto em branco). Compareceram à sessão 26 acadêmicos, 9 dos quais votarem presencialmente. Houve 27 votos por carta. “A chegada do escritor Marco Lucchesi constitui uma contribuição das mais valiosas para o quadro da Academia. Jovem e brilhante, certamente será de muita valia para os projetos e propostas que nossa Casa deseja implementar nos próximos anos”, afirmou em comunicado o Presidente da ABL, Marcos Vinicios Vilaça.
Formado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), doutor em Ciência da Literatura pela UFRJ e pós-doutor em filosofia da Renascença na Universidade de Colônia, na Alemanha, Lucchesi tem, entre suas publicações, os livros "Meridiano celeste & bestiário", premiado com o Prêmio Alphonsus de Guimarães 2006 da Biblioteca Nacional e finalista do Prêmio Jabuti 2007; "Sphera", que recebeu Menção Honrosa do Prêmio Jabuti 2004, além do Prêmio UBE de Poesia Da Costa e Silva 2004; "Os olhos do deserto"; "Saudades do paraíso" e "O sorriso do caos". Também teve algumas de suas obras publicadas em italiano, como "Poesie" e "La gioia del dolor".
A Cadeira Número 15 tem como patrono o poeta e teatrólogo Gonçalves Dias e seu primeiro ocupante foi Olavo Bilac. Além de Bilac e do Padre Ávila, ocuparam a Cadeira Amadeu Amaral (1875-1929); Guilherme de Almeida (1890-1969); Odylo Costa, filho (1914-1969); e Dom Marcos Barbosa (1915-1997).
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