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sábado, 16 de junho de 2012

Dois Velhinhos - Dalton Trevisan


Dois inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo. 
Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um consegue espiar lá fora. 
Junto à porta, no fundo da cama, para o outro é a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, pergunta o que acontece. Deslumbrado, anuncia o primeiro: 
- Um cachorro ergue a perninha no poste. 
Mais tarde: 
- Uma menina de vestido branco pulando corda. 
Ou ainda: 
- Agora é um enterro de luxo. 
Sem nada ver, o amigo remorde-se no seu canto. O mais velho acaba morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela. 
Não dorme, antegozando a manhã. O outro, maldito, lhe roubara todo esse tempo o circo mágico do cachorro, da menina, do enterro de rico. 
Cochila um instante - é dia. Senta-se na cama, com dores espicha o pescoço: no beco, muros em ruína, um monte de lixo.


Conto publicado no livro Mistérios de Curitiba, Ed. Record

Ultimamente tenho lido muitos contos para fazer uma oficina pedagógica. Estou adorando relembrar como é bom ler contos! Encontrei esse conto do curitibano Dalton Trevisan, é bem curtinho, mas a sensibilidade é imensa! Vale a pena ler.
Nesse pequeno grande conto, Dalton Trevisan lembra a imensa solidão dos asilos "Dois velhos inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo". O autor poderia ter escrito "esquecidos num quarto", mas a uso da palavra "cela" reforçou a ideia de solidão, esquecimento, confinamento, prisão: tudo aquilo que o asilo representa para anciães esquecidos pela família. Num quarto saturado de solidão, só um dos velhinhos tem acesso à janela, o outro tem de se conformar em ouvir as descrições do velhinho "sortudo": uma menina pulando corda, um cachorro no poste, um enterro...fatos tão banais e indignos de atenção para as outras pessoas, mas que se tornaram quadros interessantíssimos para os dois velhinhos, cujo campo de visão era o limitado e solitário quarto. O velhinho da janela morre, para a sórdida alegria do outro (rsrs). O contentamento era pela expectativa de finalmente olhar pela janela e contemplar o mundo lá fora, ao qual um dia já pertencera. Mas, para sua surpresa, depara-se com um muro em ruína e um monte de lixo. 
Minha interpretação é que o velhinho que morreu era cego, mas imaginava cenas cotidianas, na tentativa de passar o tempo, esquecer o esquecimento, entreter o outro velhinho e tentar enxergar a beleza nas coisas simples, apesar da cegueira (bem provável que ele já tenha enxergado um dia). Creio que o verdadeiro cego era o outro velhinho, que mesmo podendo enxergar, não foi capaz de imaginar, criar quadros bonitos em sua mente, porque o muro da cegueira da imaginação impedia.

2 comentários:

gleybson moura disse...

esse conto ele é um ótimo conto para se interpretar na leitura

gustav 1992 disse...

obgggggg poraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa caralho até q emfim achei poraaaaaaaaaaaa <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3 <3

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